J [1]
1 Havia um homem na terra de Uz, cujo nome era J. Era homem ntegro e reto, que temia a Deus e se desviava do mal.
2 Nasceram-lhe sete filhos e trs filhas.
3 Possua ele sete mil ovelhas, trs mil camelos, quinhentas juntas de bois e quinhentas jumentas, tendo tambm muitssima gente ao 
seu servio; de modo que este homem era o maior de todos os do Oriente.
4 Iam seus filhos  casa uns dos outros e faziam banquetes cada um por sua vez; e mandavam convidar as suas trs irms para 
comerem e beberem com eles.
5 E sucedia que, tendo decorrido o turno de dias de seus banquetes, enviava J e os santificava; e, levantando-se de madrugada, 
oferecia holocaustos segundo o nmero de todos eles; pois dizia J: Talvez meus filhos tenham pecado, e blasfemado de Deus no seu 
corao. Assim o fazia J continuamente.
6 Ora, chegado o dia em que os filhos de Deus vieram apresentar-se perante o Senhor, veio tambm Satans entre eles.
7 O Senhor perguntou a Satans: Donde vens? E Satans respondeu ao Senhor, dizendo: De rodear a terra, e de passear por ela.
8 Disse o Senhor a Satans: Notaste porventura o meu servo J, que ningum h na terra semelhante a ele, homem ntegro e reto, que 
teme a Deus e se desvia do mal?
9 Ento respondeu Satans ao Senhor, e disse: Porventura J teme a Deus debalde?
10 No o tens protegido de todo lado a ele, a sua casa e a tudo quanto tem? Tens abenoado a obra de suas mos, e os seus bens se 
multiplicam na terra.
11 Mas estende agora a tua mo, e toca-lhe em tudo quanto tem, e ele blasfemar de ti na tua face!
12 Ao que disse o Senhor a Satans: Eis que tudo o que ele tem est no teu poder; somente contra ele no estendas a tua mo. E 
Satans saiu da presena do Senhor.
13 Certo dia, quando seus filhos e suas filhas comiam e bebiam vinho em casa do irmo mais velho,
14 veio um mensageiro a J e lhe disse: Os bois lavravam, e as jumentas pasciam junto a eles;
15 e deram sobre eles os sabeus, e os tomaram; mataram os moos ao fio da espada, e s eu escapei para trazer-te a nova.
16 Enquanto este ainda falava, veio outro e disse: Fogo de Deus caiu do cu e queimou as ovelhas e os moos, e os consumiu; e s eu 
escapei para trazer-te a nova.
17 Enquanto este ainda falava, veio outro e disse: Os caldeus, dividindo-se em trs bandos, deram sobre os camelos e os tomaram; e 
mataram os moos ao fio da espada; e s eu escapei para trazer-te a nova.
18 Enquanto este ainda falava, veio outro e disse: Teus filhos e tuas filhas estavam comendo e bebendo vinho em casa do irmo mais 
velho;
19 e eis que sobrevindo um grande vento de alm do deserto, deu nos quatro cantos da casa, e ela caiu sobre os mancebos, de sorte 
que morreram; e s eu escapei para trazer-te a nova.
20 Ento J se levantou, rasgou o seu manto, rapou a sua cabea e, lanando-se em terra, adorou;
21 e disse: Nu sa do ventre de minha me, e nu tornarei para l. O Senhor deu, e o Senhor tirou; bendito seja o nome do Senhor.
22 Em tudo isso J no pecou, nem atribuiu a Deus falta alguma.
J [2]
1 Chegou outra vez o dia em que os filhos de Deus vieram apresentar-se perante o Senhor; e veio tambm Satans entre eles 
apresentar-se perante o Senhor.
2 Ento o Senhor perguntou a Satans: Donde vens? Respondeu Satans ao Senhor, dizendo: De rodear a terra, e de passear por ela.
3 Disse o Senhor a Satans: Notaste porventura o meu servo J, que ningum h na terra semelhante a ele, homem ntegro e reto, que 
teme a Deus e se desvia do mal? Ele ainda retm a sua integridade, embora me incitasses contra ele, para o consumir sem causa.
4 Ento Satans respondeu ao Senhor: Pele por pele! Tudo quanto o homem tem dar pela sua vida.
5 Estende agora a mo, e toca-lhe nos ossos e na carne, e ele blasfemar de ti na tua face!
6 Disse, pois, o Senhor a Satans: Eis que ele est no teu poder; somente poupa-lhe a vida.
7 Saiu, pois, Satans da presena do Senhor, e feriu J de lceras malignas, desde a planta do p at o alto da cabea.
8 E J, tomando um caco para com ele se raspar, sentou-se no meio da cinza.
9 Ento sua mulher lhe disse: Ainda retns a tua integridade? Blasfema de Deus, e morre.
10 Mas ele lhe disse: Como fala qualquer doida, assim falas tu; receberemos de Deus o bem, e no receberemos o mal? Em tudo isso 
no pecou J com os seus lbios.
11 Ouvindo, pois, trs amigos de J todo esse mal que lhe havia sucedido, vieram, cada um do seu lugar: Elifaz o temanita, Bildade o 
suta e Zofar o naamatita; pois tinham combinado para virem condoer-se dele e consol-lo.
12 E, levantando de longe os olhos e no o reconhecendo, choraram em alta voz; e, rasgando cada um o seu manto, lanaram p para 
o ar sobre as suas cabeas.
13 E ficaram sentados com ele na terra sete dias e sete noites; e nenhum deles lhe dizia palavra alguma, pois viam que a dor era muito 
grande.
J [3]
1 Depois disso abriu J a sua boca, e amaldioou o seu dia.
2 E J falou, dizendo:
3 Perea o dia em que nasci, e a noite que se disse: Foi concebido um homem!
4 Converta-se aquele dia em trevas; e Deus, l de cima, no tenha cuidado dele, nem resplandea sobre ele a luz.
5 Reclamem-no para si as trevas e a sombra da morte; habitem sobre ele nuvens; espante-o tudo o que escurece o dia.
6 Quanto quela noite, dela se apodere a escurido; e no se regozije ela entre os dias do ano; e no entre no nmero dos meses.
7 Ah! que estril seja aquela noite, e nela no entre voz de regozijo.
8 Amaldioem-na aqueles que amaldioam os dias, que so peritos em suscitar o leviat.
9 As estrelas da alva se lhe escuream; espere ela em vo a luz, e no veja as plpebras da manh;
10 porquanto no fechou as portas do ventre de minha me, nem escondeu dos meus olhos a aflio.
11 Por que no morri ao nascer? por que no expirei ao vir  luz?
12 Por que me receberam os joelhos? e por que os seios, para que eu mamasse?
13 Pois agora eu estaria deitado e quieto; teria dormido e estaria em repouso,
14 com os reis e conselheiros da terra, que reedificavam runas para si,
15 ou com os prncipes que tinham ouro, que enchiam as suas casas de prata;
16 ou, como aborto oculto, eu no teria existido, como as crianas que nunca viram a luz.
17 Ali os mpios cessam de perturbar; e ali repousam os cansados.
18 Ali os presos descansam juntos, e no ouvem a voz do exator.
19 O pequeno e o grande ali esto e o servo est livre de seu senhor.
20 Por que se concede luz ao aflito, e vida aos amargurados de alma;
21 que anelam pela morte sem que ela venha, e cavam em procura dela mais do que de tesouros escondidos;
22 que muito se regozijam e exultam, quando acham a sepultura?
23 Sim, por que se concede luz ao homem cujo caminho est escondido, e a quem Deus cercou de todos os lados?
24 Pois em lugar de meu po vem o meu suspiro, e os meus gemidos se derramam como gua.
25 Porque aquilo que temo me sobrevm, e o que receio me acontece.
26 No tenho repouso, nem sossego, nem descanso; mas vem a perturbao.
J [4]
1 Ento respondeu Elifaz, o temanita, e disse:
2 Se algum intentar falar-te, enfadarte-s? Mas quem poder conter as palavras?
3 Eis que tens ensinado a muitos, e tens fortalecido as mos fracas.
4 As tuas palavras tm sustentado aos que cambaleavam, e os joelhos desfalecentes tens fortalecido.
5 Mas agora que se trata de ti, te enfadas; e, tocando-te a ti, te desanimas.
6 Porventura no est a tua confiana no teu temor de Deus, e a tua esperana na integridade dos teus caminhos?
7 Lembra-te agora disto: qual o inocente que jamais pereceu? E onde foram os retos destrudos?
8 Conforme tenho visto, os que lavram iniquidade e semeiam o mal segam o mesmo.
9 Pelo sopro de Deus perecem, e pela rajada da sua ira so consumidos.
10 Cessa o rugido do leo, e a voz do leo feroz; os dentes dos leezinhos se quebram.
11 Perece o leo velho por falta de presa, e os filhotes da leoa andam dispersos.
12 Ora, uma palavra se me disse em segredo, e os meus ouvidos perceberam um sussurro dela.
13 Entre pensamentos nascidos de vises noturnas, quando cai sobre os homens o sono profundo,
14 sobrevieram-me o espanto e o tremor, que fizeram estremecer todos os meus ossos.
15 Ento um esprito passou por diante de mim; arrepiaram-se os cabelos do meu corpo.
16 Parou ele, mas no pude discernir a sua aparncia; um vulto estava diante dos meus olhos; houve silncio, ento ouvi uma voz que 
dizia:
17 Pode o homem mortal ser justo diante de Deus? Pode o varo ser puro diante do seu Criador?
18 Eis que Deus no confia nos seus servos, e at a seus anjos atribui loucura;
19 quanto mais aos que habitam em casas de lodo, cujo fundamento est no p, e que so esmagados pela traa!
20 Entre a manh e a tarde so destrudos; perecem para sempre sem que disso se faa caso.
21 Se dentro deles  arrancada a corda da sua tenda, porventura no morrem, e isso sem atingir a sabedoria?
J [5]
1 Chama agora; h algum que te responda; E a qual dentre os entes santos te dirigirs?
2 Pois a dor destri o louco, e a inveja mata o tolo.
3 Bem vi eu o louco lanar razes; mas logo amaldioei a sua habitao:
4 Seus filhos esto longe da segurana, e so pisados nas portas, e no h quem os livre.
5 A sua messe  devorada pelo faminto, que at dentre os espinhos a tira; e o lao abre as fauces para a fazenda deles.
6 Porque a aflio no procede do p, nem a tribulao brota da terra;
7 mas o homem nasce para a tribulao, como as fascas voam para cima.
8 Mas quanto a mim eu buscaria a Deus, e a Deus entregaria a minha causa;
9 o qual faz coisas grandes e inescrutveis, maravilhas sem nmero.
10 Ele derrama a chuva sobre a terra, e envia guas sobre os campos.
11 Ele pe num lugar alto os abatidos; e os que choram so exaltados  segurana.
12 Ele frustra as maquinaes dos astutos, de modo que as suas mos no possam levar coisa alguma a efeito.
13 Ele apanha os sbios na sua prpria astcia, e o conselho dos perversos se precipita.
14 Eles de dia encontram as trevas, e ao meio-dia andam s apalpadelas, como de noite.
15 Mas Deus livra o necessitado da espada da boca deles, e da mo do poderoso.
16 Assim h esperana para o pobre; e a iniqidade tapa a boca.
17 Eis que bem-aventurado  o homem a quem Deus corrige; no desprezes, pois, a correo do Todo-Poderoso.
18 Pois ele faz a ferida, e ele mesmo a liga; ele fere, e as suas mos curam.
19 Em seis angstias te livrar, e em sete o mal no te tocar.
20 Na fome te livrar da morte, e na guerra do poder da espada.
21 Do aoite da lngua estars abrigado, e no temers a assolao, quando chegar.
22 Da assolao e da fome te rirs, e dos animais da terra no ters medo.
23 Pois at com as pedras do campo ters a tua aliana, e as feras do campo estaro em paz contigo.
24 Sabers que a tua tenda est em paz; visitars o teu rebanho, e nada te faltar.
25 Tambm sabers que se multiplicar a tua descendncia e a tua posteridade como a erva da terra.
26 Em boa velhice irs  sepultura, como se recolhe o feixe de trigo a seu tempo.
27 Eis que isso j o havemos inquirido, e assim o ; ouve-o, e conhece-o para teu bem.
J [6]
1 Ento J, respondendo, disse:
2 Oxal de fato se pesasse a minha mgoa, e juntamente na balana se pusesse a minha calamidade!
3 Pois, na verdade, seria mais pesada do que a areia dos mares; por isso  que as minhas palavras tm sido temerrias.
4 Porque as flechas do Todo-Poderoso se cravaram em mim, e o meu esprito suga o veneno delas; os terrores de Deus se 
arregimentam contra mim.
5 Zurrar o asno monts quando tiver erva? Ou mugir o boi junto ao seu pasto?:
6 Pode se comer sem sal o que  inspido? Ou h gosto na clara do ovo?
7 Nessas coisas a minha alma recusa tocar, pois so para mim qual comida repugnante.
8 Quem dera que se cumprisse o meu rogo, e que Deus me desse o que anelo!
9 que fosse do agrado de Deus esmagar-me; que soltasse a sua mo, e me exterminasse!
10 Isto ainda seria a minha consolao, e exultaria na dor que no me poupa; porque no tenho negado as palavras do Santo.
11 Qual  a minha fora, para que eu espere? Ou qual  o meu fim, para que me porte com pacincia?
12  a minha fora a fora da pedra? Ou  de bronze a minha carne?
13 Na verdade no h em mim socorro nenhum. No me desamparou todo o auxlio eficaz?
14 Ao que desfalece devia o amigo mostrar compaixo; mesmo ao que abandona o temor do Todo-Poderoso.
15 Meus irmos houveram-se aleivosamente, como um ribeiro, como a torrente dos ribeiros que passam,
16 os quais se turvam com o gelo, e neles se esconde a neve;
17 no tempo do calor vo minguando; e quando o calor vem, desaparecem do seu lugar.
18 As caravanas se desviam do seu curso; sobem ao deserto, e perecem.
19 As caravanas de Tema olham; os viandantes de Sab por eles esperam.
20 Ficam envergonhados por terem confiado; e, chegando ali, se confundem.
21 Agora, pois, tais vos tornastes para mim; vedes a minha calamidade e temeis.
22 Acaso disse eu: Dai-me um presente? Ou: Fazei-me uma oferta de vossos bens?
23 Ou: Livrai-me das mos do adversrio? Ou: Resgatai-me das mos dos opressores ?
24 Ensinai-me, e eu me calarei; e fazei-me entender em que errei.
25 Quo poderosas so as palavras da boa razo! Mas que  o que a vossa argio reprova?
26 Acaso pretendeis reprovar palavras, embora sejam as razes do desesperado como vento?
27 At quereis lanar sortes sobre o rfo, e fazer mercadoria do vosso amigo.
28 Agora, pois, por favor, olhai para, mim; porque de certo  vossa face no mentirei.
29 Mudai de parecer, peo-vos, no haja injustia; sim, mudai de parecer, que a minha causa  justa.
30 H iniqidade na minha lngua? Ou no poderia o meu paladar discernir coisas perversas?
J [7]
1 Porventura no tem o homem duro servio sobre a terra? E no so os seus dias como os do jornaleiro?
2 Como o escravo que suspira pela sombra, e como o jornaleiro que espera pela sua paga,
3 assim se me deram meses de escassez, e noites de aflio se me ordenaram.
4 Havendo-me deitado, digo: Quando me levantarei? Mas comprida  a noite, e farto-me de me revolver na cama at a alva.
5 A minha carne se tem vestido de vermes e de torres de p; a minha pele endurece, e torna a rebentar-se.
6 Os meus dias so mais velozes do que a lanadeira do tecelo, e chegam ao fim sem esperana.
7 Lembra-te de que a minha vida  um sopro; os meus olhos no tornaro a ver o bem.
8 Os olhos dos que agora me vem no me vero mais; os teus olhos estaro sobre mim, mas no serei mais.
9 Tal como a nuvem se desfaz e some, aquele que desce  sepultura nunca tornar a subir.
10 Nunca mais tornar  sua casa, nem o seu lugar o conhecer mais.
11 Por isso no reprimirei a minha boca; falarei na angstia do meu esprito, queixar-me-ei na amargura da minha alma.
12 Sou eu o mar, ou um monstro marinho, para que me ponhas uma guarda?
13 Quando digo: Confortar-me- a minha cama, meu leito aliviar a minha queixa,
14 ento me espantas com sonhos, e com vises me atemorizas;
15 de modo que eu escolheria antes a estrangulao, e a morte do que estes meus ossos.
16 A minha vida abomino; no quero viver para sempre; retira-te de mim, pois os meus dias so vaidade.
17 Que  o homem, para que tanto o engrandeas, e ponhas sobre ele o teu pensamento,
18 e cada manh o visites, e cada momento o proves?
19 At quando no apartars de mim a tua vista, nem me largars, at que eu possa engolir a minha saliva?
20 Se peco, que te fao a ti,  vigia dos homens? Por que me fizeste alvo dos teus dardos? Por que a mim mesmo me tornei pesado?
21 Por que me no perdoas a minha transgresso, e no tiras a minha iniqidade? Pois agora me deitarei no p; tu me buscars, porm 
eu no serei mais.
J [8]
1 Ento respondeu Bildade, o suta, dizendo:
2 At quando falars tais coisas, e at quando sero as palavras da tua boca qual vento impetuoso?
3 Perverteria Deus o direito? Ou perverteria o Todo-Poderoso a justia?
4 Se teus filhos pecaram contra ele, ele os entregou ao poder da sua transgresso.
5 Mas, se tu com empenho buscares a Deus, e ,ao Todo-Poderoso fizeres a tua splica,
6 se fores puro e reto, certamente mesmo agora ele despertar por ti, e tornar segura a habitao da tua justia.
7 Embora tenha sido pequeno o teu princpio, contudo o teu ltimo estado aumentar grandemente.
8 Indaga, pois, eu te peo, da gerao passada, e considera o que seus pais descobriram.
9 Porque ns somos de ontem, e nada sabemos, porquanto nossos dias sobre a terra, so uma sombra.
10 No te ensinaro eles, e no te falaro, e do seu entendimento no proferiro palavras?
11 Pode o papiro desenvolver-se fora de um pntano. Ou pode o junco crescer sem gua?
12 Quando est em flor e ainda no cortado, seca-se antes de qualquer outra erva.
13 Assim so as veredas de todos quantos se esquecem de Deus; a esperana do mpio perecer,
14 a sua segurana se desfar, e a sua confiana ser como a teia de aranha.
15 Encostar-se-  sua casa, porm ela no subsistir; apegar-se-lhe-, porm ela no permanecer.
16 Ele est verde diante do sol, e os seus renovos estendem-se sobre o seu jardim;
17 as suas razes se entrelaam junto ao monte de pedras; at penetra o pedregal.
18 Mas quando for arrancado do seu lugar, ento este o negar, dizendo: Nunca te vi.
19 Eis que tal  a alegria do seu caminho; e da terra outros brotaro.
20 Eis que Deus no rejeitar ao reto, nem tomar pela mo os malfeitores;
21 ainda de riso te encher a boca, e os teus lbios de louvor.
22 Teus aborrecedores se vestiro de confuso; e a tenda dos mpios no subsistir.
J [9]
1 Ento J respondeu, dizendo:
2 Na verdade sei que assim ; mas como pode o homem ser justo para com Deus?
3 Se algum quisesse contender com ele, no lhe poderia responder uma vez em mil.
4 Ele  sbio de corao e poderoso em foras; quem se endureceu contra ele, e ficou seguro?
5 Ele  o que remove os montes, sem que o saibam, e os transtorna no seu furor;
6 o que sacode a terra do seu lugar, de modo que as suas colunas estremecem;
7 o que d ordens ao sol, e ele no nasce; o que sela as estrelas;
8 o que sozinho estende os cus, e anda sobre as ondas do mar;
9 o que fez a ursa, o Oriom, e as Pliades, e as recmaras do sul;
10 o que faz coisas grandes e insondveis, e maravilhas que no se podem contar.
11 Eis que ele passa junto a mim, e, nao o vejo; sim, vai passando adiante, mas no o percebo.
12 Eis que arrebata a presa; quem o pode impedir? Quem lhe dir: Que  o que fazes?
13 Deus no retirar a sua ira; debaixo dele se curvaram os aliados de Raabe;
14 quanto menos lhe poderei eu responder ou escolher as minhas palavras para discutir com ele?
15 Embora, eu seja justo, no lhe posso responder; tenho de pedir misericrdia ao meu juiz.
16 Ainda que eu chamasse, e ele me respondesse, no poderia crer que ele estivesse escutando a minha voz.
17 Pois ele me quebranta com uma tempestade, e multiplica as minhas chagas sem causa.
18 No me permite respirar, antes me farta de amarguras.
19 Se fosse uma prova de fora, eis-me aqui, diria ele; e se fosse questo de juzo, quem o citaria para comparecer?
20 Ainda que eu fosse justo, a minha prpria boca me condenaria; ainda que eu fosse perfeito, ento ela me declararia perverso:
21 Eu sou inocente; no estimo a mim mesmo; desprezo a minha vida.
22 Tudo  o mesmo, portanto digo: Ele destri o reto e o mpio.
23 Quando o aoite mata de repente, ele zomba da calamidade dos inocentes.
24 A terra est entregue nas mos do mpio. Ele cobre o rosto dos juzes; se no  ele, quem , logo?
25 Ora, os meus dias so mais velozes do que um correio; fogem, e no vem o bem.
26 Eles passam como balsas de junco, como guia que se lana sobre a presa.
27 Se eu disser: Eu me esquecerei da minha queixa, mudarei o meu aspecto, e tomarei alento;
28 ento tenho pavor de todas as minhas dores; porque bem sei que no me ters por inocente.
29 Eu serei condenado; por que, pois, trabalharei em vo?
30 Se eu me lavar com gua de neve, e limpar as minhas mos com sabo,
31 mesmo assim me submergirs no fosso, e as minhas prprias vestes me abominaro.
32 Porque ele no  homem, como eu, para eu lhe responder, para nos encontrarmos em juzo.
33 No h entre ns rbitro para pr a mo sobre ns ambos.
34 Tire ele a sua vara de cima de mim, e no me amedronte o seu terror;
35 ento falarei, e no o temerei; pois eu no sou assim em mim mesmo.
J [10]
1 Tendo tdio  minha vida; darei livre curso  minha queixa, falarei na amargura da minha alma:
2 Direi a Deus: No me condenes; faze-me saber por que contendes comigo.
3 Tens prazer em oprimir, em desprezar a obra das tuas mos e favorecer o desgnio dos mpios?
4 Tens tu olhos de carne? Ou vs tu como v o homem?
5 So os teus dias como os dias do homem? Ou so os teus anos como os anos de um homem,
6 para te informares da minha iniqidade, e averiguares o meu pecado,
7 ainda que tu sabes que eu no sou mpio, e que no h ningum que possa livrar-me da tua mo?
8 As tuas mos me fizeram e me deram forma; e te voltas agora para me consumir?
9 Lembra-te, pois, de que do barro me formaste; e queres fazer-me tornar ao p?
10 No me vazaste como leite, e no me coalhaste como queijo?
11 De pele e carne me vestiste, e de ossos e nervos me teceste.
12 Vida e misericrdia me tens concedido, e a tua providncia me tem conservado o esprito.
13 Contudo ocultaste estas coisas no teu corao; bem sei que isso foi o teu desgnio.
14 Se eu pecar, tu me observas, e da minha iniqidade no me absolvers.
15 Se for mpio, ai de mim! Se for justo, no poderei levantar a minha cabea, estando farto de ignomnia, e de contemplar a minha 
misria.
16 Se a minha cabea se exaltar, tu me caas como a um leo feroz; e de novo fazes maravilhas contra mim.
17 Tu renovas contra mim as tuas testemunhas, e multiplicas contra mim a tua ira; reveses e combate esto comigo.
18 Por que, pois, me tiraste da madre? Ah! se ento tivera expirado, e olhos nenhuns me vissem!
19 Ento fora como se nunca houvera sido; e da madre teria sido levado para a sepultura.
20 No so poucos os meus dias? Cessa, pois, e deixa-me, para que por um pouco eu tome alento;
21 antes que me v para o lugar de que no voltarei, para a terra da escurido e das densas trevas,
22 terra escurssima, como a prpria escurido, terra da sombra trevosa e do caos, e onde a prpria luz  como a escurido.
J [11]
1 Ento respondeu Zofar, o naamatita, dizendo:
2 No se dar resposta  multido de palavras? ou ser justificado o homem falador?
3 Acaso as tuas jactncias faro calar os homens? e zombars tu sem que ningum te envergonhe?
4 Pois dizes: A minha doutrina  pura, e limpo sou aos teus olhos.
5 Mas, na verdade, oxal que Deus falasse e abrisse os seus lbios contra ti,
6 e te fizesse saber os segredos da sabedoria, pois  multiforme o seu entendimento; sabe, pois, que Deus exige de ti menos do que 
merece a tua iniqidade.
7 Poders descobrir as coisas profundas de Deus, ou descobrir perfeitamente o Todo-Poderoso?
8 Como as alturas do cu  a sua sabedoria; que poders tu fazer? Mais profunda  ela do que o Seol; que poders tu saber?
9 Mais comprida  a sua medida do que a terra, e mais larga do que o mar.
10 Se ele passar e prender algum, e chamar a juzo, quem o poder impedir?
11 Pois ele conhece os homens vos; e quando v a iniqidade, no atentar para ela?
12 Mas o homem vo adquirir entendimento, quando a cria do asno monts nascer homem.
13 Se tu preparares o teu corao, e estenderes as mos para ele;
14 se h iniqidade na tua mo, lana-a para longe de ti, e no deixes a perversidade habitar nas tuas tendas;
15 ento levantars o teu rosto sem mcula, e estars firme, e no temers.
16 Pois tu te esquecers da tua misria; apenas te lembrars dela como das guas que j passaram.
17 E a tua vida ser mais clara do que o meio-dia; a escurido dela ser como a alva.
18 E ters confiana, porque haver esperana; olhars ao redor de ti e repousars seguro.
19 Deitar-te-s, e ningum te amedrontar; muitos procuraro obter o teu favor.
20 Mas os olhos dos mpios desfalecero, e para eles no haver refgio; a sua esperana ser o expirar.
J [12]
1 Ento J respondeu, dizendo:
2 Sem dvida vs sois o povo, e convosco morrer a sabedoria.
3 Mas eu tenho entendimento como, vos; eu no vos sou inferior. Quem no sabe tais coisas como essas?
4 Sou motivo de riso para os meus amigos; eu, que invocava a Deus, e ele me respondia: o justo e reto servindo de irriso!
5 No pensamento de quem est seguro h desprezo para a desgraa; ela est preparada para aquele cujos ps resvalam.
6 As tendas dos assoladores tm descanso, e os que provocam a Deus esto seguros; os que trazem o seu deus na mo!
7 Mas, pergunta agora s alimrias, e elas te ensinaro; e s aves do cu, e elas te faro saber;
8 ou fala com a terra, e ela te ensinar; at os peixes o mar to declararo.
9 Qual dentre todas estas coisas no sabe que a mo do Senhor fez isto?
10 Na sua mo est a vida de todo ser vivente, e o esprito de todo o gnero humano.
11 Porventura o ouvido no prova as palavras, como o paladar prova o alimento?
12 Com os ancios est a sabedoria, e na longura de dias o entendimento.
13 Com Deus est a sabedoria e a fora; ele tem conselho e entendimento.
14 Eis que ele derriba, e no se pode reedificar; ele encerra na priso, e no se pode abrir.
15 Ele retm as guas, e elas secam; solta-as, e elas inundam a terra.
16 Com ele est a fora e a sabedoria; so dele o enganado e o enganador.
17 Aos conselheiros leva despojados, e aos juzes faz desvairar.
18 Solta o cinto dos reis, e lhes ata uma corda aos lombos.
19 Aos sacerdotes leva despojados, e aos poderosos transtorna.
20 Aos que so dignos da confiana emudece, e tira aos ancios o discernimento.
21 Derrama desprezo sobre os prncipes, e afrouxa o cinto dos fortes.
22 Das trevas descobre coisas profundas, e traz para a luz a sombra da morte.
23 Multiplica as naes e as faz perecer; alarga as fronteiras das naes, e as leva cativas.
24 Tira o entendimento aos chefes do povo da terra, e os faz vaguear pelos desertos, sem caminho.
25 Eles andam nas trevas s apalpadelas, sem luz, e ele os faz cambalear como um brio.
J [13]
1 Eis que os meus olhos viram tudo isto, e os meus ouvidos o ouviram e entenderam.
2 O que vs sabeis tambm eu o sei; no vos sou inferior.
3 Mas eu falarei ao Todo-Poderoso, e quero defender-me perante Deus.
4 Vs, porm, sois forjadores de mentiras, e vs todos, mdicos que no valem nada.
5 Oxal vos calsseis de todo, pois assim passareis por sbios.
6 Ouvi agora a minha defesa, e escutai os argumentos dos meus lbios.
7 Falareis falsamente por Deus, e por ele proferireis mentiras?
8 Fareis aceitao da sua pessoa? Contendereis a favor de Deus?
9 Ser-vos-ia bom, se ele vos esquadrinhasse? Ou zombareis dele, como quem zomba de um homem?
10 Certamente vos repreender, se em oculto vos deixardes levar de respeitos humanos.
11 No vos amedrontar a sua majestade? E no cair sobre vs o seu terror?
12 As vossas mximas so provrbios de cinza; as vossas defesas so torres de barro.
13 Calai-vos perante mim, para que eu fale, e venha sobre mim o que vier.
14 Tomarei a minha carne entre os meus dentes, e porei a minha vida na minha mo.
15 Eis que ele me matar; no tenho esperana; contudo defenderei os meus caminhos diante dele.
16 Tambm isso ser a minha salvao, pois o mpio no vir perante ele.
17 Ouvi atentamente as minhas palavras, e chegue aos vossos ouvidos a minha declarao.
18 Eis que j pus em ordem a minha causa, e sei que serei achado justo:
19 Quem  o que contender comigo? Pois ento me calaria e renderia o esprito.
20 Concede-me somente duas coisas; ento no me esconderei do teu rosto:
21 desvia a tua mo rara longe de mim, e no me amedronte o teu terror.
22 Ento chama tu, e eu responderei; ou eu falarei, e me responde tu.
23 Quantas iniqidades e pecados tenho eu? Faze-me saber a minha transgresso e o meu pecado.
24 Por que escondes o teu rosto, e me tens por teu inimigo?
25 Acossars uma folha arrebatada pelo vento? E perseguirs o restolho seco?
26 Pois escreves contra mim coisas amargas, e me fazes herdar os erros da minha mocidade;
27 tambm pes no tronco os meus ps, e observas todos os meus caminhos, e marcas um termo ao redor dos meus ps,
28 apesar de eu ser como uma coisa podre que se consome, e como um vestido, ao qual ri a traa.
J [14]
1 O homem, nascido da mulher,  de poucos dias e cheio de inquietao.
2 Nasce como a flor, e murcha; foge tambm como a sombra, e no permanece.
3 Sobre esse tal abres os teus olhos, e a mim me fazes entrar em juzo contigo?
4 Quem do imundo tirar o puro? Ningum.
5 Visto que os seus dias esto determinados, contigo est o nmero dos seus meses; tu lhe puseste limites, e ele no poder passar 
alm deles.
6 Desvia dele o teu rosto, para que ele descanse e, como o jornaleiro, tenha contentamento no seu dia.
7 Porque h esperana para a rvore, que, se for cortada, ainda torne a brotar, e que no cessem os seus renovos.
8 Ainda que envelhea a sua raiz na terra, e morra o seu tronco no p,
9 contudo ao cheiro das guas brotar, e lanar ramos como uma planta nova.
10 O homem, porm, morre e se desfaz; sim, rende o homem o esprito, e ento onde est?
11 Como as guas se retiram de um lago, e um rio se esgota e seca,
12 assim o homem se deita, e no se levanta; at que no haja mais cus no acordar nem ser despertado de seu sono.
13 Oxal me escondesses no Seol, e me ocultasses at que a tua ira tenha passado; que me determinasses um tempo, e te lembrasses 
de mim!
14 Morrendo o homem, acaso tornar a viver? Todos os dias da minha lida esperaria eu, at que viesse a minha mudana.
15 Chamar-me-ias, e eu te responderia; almejarias a obra de tuas mos.
16 Ento contarias os meus passos; no estarias a vigiar sobre o meu pecado;
17 a minha transgresso estaria selada num saco, e ocultarias a minha iniqidade.
18 Mas, na verdade, a montanha cai e se desfaz, e a rocha se remove do seu lugar.
19 As guas gastam as pedras; as enchentes arrebatam o solo; assim tu fazes perecer a esperana do homem.
20 Prevaleces para sempre contra ele, e ele passa; mudas o seu rosto e o despedes.
21 Os seus filhos recebem honras, sem que ele o saiba; so humilhados sem que ele o perceba.
22 Sente as dores do seu prprio corpo somente, e s por si mesmo lamenta.
J [15]
1 Ento respondeu Elifaz, o temanita:
2 Porventura responder o sbio com cincia de vento? E encher do vento oriental o seu ventre,
3 argindo com palavras que de nada servem, ou com razes com que ele nada aproveita?
4 Na verdade tu destris a reverncia, e impedes a meditao diante de Deus.
5 Pois a tua iniqidade ensina a tua boca, e escolhes a lngua dos astutos.
6 A tua prpria boca te condena, e no eu; e os teus lbios testificam contra ti.
7 s tu o primeiro homem que nasceu? Ou foste dado  luz antes dos outeiros?
8 Ou ouviste o secreto conselho de Deus? E a ti s reservas a sabedoria?
9 Que sabes tu, que ns no saibamos; que entendes, que no haja em ns?
10 Conosco esto os encanecidos e idosos, mais idosos do que teu pai.
11 Porventura fazes pouco caso das consolaes de Deus, ou da palavra que te trata benignamente?
12 Por que te arrebata o teu corao, e por que flamejam os teus olhos,
13 de modo que voltas contra Deus o teu esprito, e deixas sair tais palavras da tua boca?
14 Que  o homem, para que seja puro? E o que nasce da mulher, para que fique justo?
15 Eis que Deus no confia nos seus santos, e nem o cu  puro aos seus olhos;
16 quanto menos o homem abominvel e corrupto, que bebe a iniqidade como a gua?
17 Escuta-me e to mostrarei; contar-te-ei o que tenho visto
18 (o que os sbios tm anunciado e seus pais no o ocultaram;
19 aos quais somente era dada a terra, no havendo estranho algum passado por entre eles);
20 Todos os dias passa o mpio em angstia, sim, todos os anos que esto reservados para o opressor.
21 O sonido de terrores est nos seus ouvidos; na prosperidade lhe sobrevm o assolador.
22 Ele no cr que tornar das trevas, mas que o espera a espada.
23 Anda vagueando em busca de po, dizendo: Onde est? Bem sabe que o dia das trevas lhe est perto,  mo.
24 Amedrontam-no a angstia e a tribulao; prevalecem contra ele, como um rei preparado para a peleja.
25 Porque estendeu a sua mo contra Deus, e contra o Todo-Poderoso se porta com soberba;
26 arremete contra ele com dura cerviz, e com as salincias do seu escudo;
27 porquanto cobriu o seu rosto com a sua gordura, e criou carne gorda nas ilhargas;
28 e habitou em cidades assoladas, em casas em que ningum deveria morar, que estavam a ponto de tornar-se em montes de runas;
29 no se enriquecer, nem subsistir a sua fazenda, nem se estendero pela terra as suas possesses.
30 No escapar das trevas; a chama do fogo secar os seus ramos, e ao sopro da boca de Deus desaparecer.
31 No confie na vaidade, enganando-se a si mesmo; pois a vaidade ser a sua recompensa.
32 Antes do seu dia se cumprir, e o seu ramo no reverdecer.
33 Sacudir as suas uvas verdes, como a vide, e deixar cair a sua flor como a oliveira.
34 Pois a assemblia dos mpios  estril, e o fogo consumir as tendas do suborno.
35 Concebem a malcia, e do  luz a iniqidade, e o seu corao prepara enganos.
J [16]
1 Ento J respondeu, dizendo:
2 Tenho ouvido muitas coisas como essas; todos vs sois consoladores molestos.
3 No tero fim essas palavras de vento? Ou que  o que te provoca, para assim responderes?
4 Eu tambm poderia falar como vs falais, se vs estivsseis em meu lugar; eu poderia amontoar palavras contra vs, e contra vs 
menear a minha cabea;
5 poderia fortalecer-vos com a minha boca, e a consolao dos meus lbios poderia mitigar a vossa dor.
6 Ainda que eu fale, a minha dor no se mitiga; e embora me cale, qual  o meu alvio?
7 Mas agora,  Deus, me deixaste exausto; assolaste toda a minha companhia.
8 Tu me emagreceste, e isso constitui uma testemunha contra mim; contra mim se levanta a minha magreza, e o meu rosto testifica 
contra mim.
9 Na sua ira ele me despedaou, e me perseguiu; rangeu os dentes contra mim; o meu adversrio agua os seus olhos contra mim.
10 Os homens abrem contra mim a boca; com desprezo me ferem nas faces, e contra mim se ajuntam  uma.
11 Deus me entrega ao mpio, nas mos dos inquos me faz cair.
12 Descansado estava eu, e ele me quebrantou; e pegou-me pelo pescoo, e me despedaou; colocou-me por seu alvo;
13 cercam-me os seus flecheiros. Atravessa-me os rins, e no me poupa; derrama o meu fel pela terra.
14 Quebranta-me com golpe sobre golpe; arremete contra mim como um guerreiro.
15 Sobre a minha pele cosi saco, e deitei a minha glria no p.
16 O meu rosto todo est inflamado de chorar, e h sombras escuras sobre as minhas plpebras,
17 embora no haja violncia nas minhas mos, e seja pura a minha orao.
18  terra, no cubras o meu sangue, e no haja lugar em que seja abafado o meu clamor!
19 Eis que agora mesmo a minha testemunha est no cu, e o meu fiador nas alturas.
20 Os meus amigos zombam de mim; mas os meus olhos se desfazem em lgrimas diante de Deus,
21 para que ele defenda o direito que o homem tem diante de Deus e o que o filho do homem tem perante, o seu prximo.
22 Pois quando houver decorrido poucos anos, eu seguirei o caminho por onde no tornarei.
J [17]
1 O meu esprito est quebrantado, os meus dias se extinguem, a sepultura me est preparada!
2 Deveras estou cercado de zombadores, e os meus olhos contemplam a sua provocao!
3 D-me, peo-te, um penhor, e s o meu fiador para contigo; quem mais h que me d a mo?
4 Porque aos seus coraes encobriste o entendimento, pelo que no os exaltars.
5 Quem entrega os seus amigos como presa, os olhos de seus filhos desfalecero.
6 Mas a mim me ps por motejo dos povos; tornei-me como aquele em cujo rosto se cospe.
7 De mgoa se escureceram os meus olhos, e todos os meus membros so como a sombra.
8 Os retos pasmam disso, e o inocente se levanta contra o mpio.
9 Contudo o justo prossegue no seu caminho e o que tem mos puras vai crescendo em fora.
10 Mas tornai vs todos, e vinde, e sbio nenhum acharei entre vs.
11 Os meus dias passaram, malograram-se os meus propsitos, as aspiraes do meu corao.
12 Trocam a noite em dia; dizem que a luz est perto das trevas.
13 Se eu olhar o Seol como a minha casa, se nas trevas estender a minha cama,
14 se eu clamar  cova: Tu s meu pai; e aos vermes: Vs sois minha me e minha irm;
15 onde est ento a minha esperana? Sim, a minha esperana, quem a poder ver?
16 Acaso descer comigo at os ferrolhos do Seol? Descansaremos juntos no p?
J [18]
1 Ento respondeu Bildade, o suta:
2 At quando estareis  procura de palavras? considerai bem, e ento falaremos.
3 Por que somos tratados como gado, e como estultos aos vossos olhos?
4 Oh tu, que te despedaas na tua ira, acaso por amor de ti ser abandonada a terra, ou ser a rocha removida do seu lugar?
5 Na verdade, a luz do mpio se apagar, e no resplandecer a chama do seu fogo.
6 A luz se escurecer na sua tenda, e a lmpada que est sobre ele se apagar.
7 Os seus passos firmes se estreitaro, e o seu prprio conselho o derribar.
8 Pois por seus prprios ps  ele lanado na rede, e pisa nos laos armados.
9 A armadilha o apanha pelo calcanhar, e o lao o prende;
10 a corda do mesmo est-lhe escondida na terra, e uma armadilha na vereda.
11 Terrores o amedrontam de todos os lados, e de perto lhe perseguem os ps.
12 O seu vigor  diminudo pela fome, e a destruio est pronta ao seu lado.
13 So devorados os membros do seu corpo; sim, o primognito da morte devora os seus membros.
14 Arrancado da sua tenda, em que confiava,  levado ao rei dos terrores.
15 Na sua tenda habita o que no lhe pertence; espalha-se enxofre sobre a sua habitao.
16 Por baixo se secam as suas razes, e por cima so cortados os seus ramos.
17 A sua memria perece da terra, e pelas praas no tem nome.
18  lanado da luz para as trevas, e afugentado do mundo.
19 No tem filho nem neto entre o seu povo, e descendente nenhum lhe ficar nas moradas.
20 Do seu dia pasmam os do ocidente, assim como os do oriente ficam sobressaltados de horror.
21 Tais so, na verdade, as moradas do, mpio, e tal  o lugar daquele que no conhece a Deus.
J [19]
1 Ento J respondeu:
2 At quando afligireis a minha alma, e me atormentareis com palavras?
3 J dez vezes me haveis humilhado; no vos envergonhais de me maltratardes?
4 Embora haja eu, na verdade, errado, comigo fica o meu erro.
5 Se deveras vos quereis engrandecer contra mim, e me incriminar pelo meu oprbrio,
6 sabei ento que Deus  o que transtornou a minha causa, e com a sua rede me cercou.
7 Eis que clamo: Violncia! mas no sou ouvido; grito: Socorro! mas no h justia.
8 com muros fechou ele o meu caminho, de modo que no posso passar; e ps trevas nas minhas veredas.
9 Da minha honra me despojou, e tirou-me da cabea a coroa.
10 Quebrou-me de todos os lados, e eu me vou; arrancou a minha esperana, como a, uma rvore.
11 Acende contra mim a sua ira, e me considera como um de seus adversrios.
12 Juntas as suas tropas avanam, levantam contra mim o seu caminho, e se acampam ao redor da minha tenda.
13 Ele ps longe de mim os meus irmos, e os que me conhecem tornaram-se estranhos para mim.
14 Os meus parentes se afastam, e os meus conhecidos se esquecem de, mim.
15 Os meus domsticos e as minhas servas me tm por estranho; vim a ser um estrangeiro aos seus olhos.
16 Chamo ao meu criado, e ele no me responde; tenho que suplicar-lhe com a minha boca.
17 O meu hlito  intolervel  minha mulher; sou repugnante aos filhos de minha me.
18 At os pequeninos me desprezam; quando me levanto, falam contra mim.
19 Todos os meus amigos ntimos me abominam, e at os que eu amava se tornaram contra mim.
20 Os meus ossos se apegam  minha pele e  minha carne, e s escapei com a pele dos meus dentes.
21 Compadecei-vos de mim, amigos meus; compadecei-vos de mim; pois a mo de Deus me tocou.
22 Por que me perseguis assim como Deus, e da minha carne no vos fartais?
23 Oxal que as minhas palavras fossem escritas! Oxal que fossem gravadas num livro!
24 Que, com pena de ferro, e com chumbo, fossem para sempre esculpidas na rocha!
25 Pois eu sei que o meu Redentor vive, e que por fim se levantar sobre a terra.
26 E depois de consumida esta minha pele, ento fora da minha carne verei a Deus;
27 v-lo-ei ao meu lado, e os meus olhos o contemplaro, e no mais como adversrio. O meu corao desfalece dentro de mim!
28 Se disserdes: Como o havemos de perseguir! e que a causa deste mal se acha em mim,
29 temei vs a espada; porque o furor traz os castigos da espada, para saberdes que h um juzo.
J [20]
1 Ento respondeu Zofar, o naamatita:
2 Ora, os meus pensamentos me fazem responder, e por isso eu me apresso.
3 Estou ouvindo a tua repreenso, que me envergonha, mas o esprito do meu entendimento responde por mim.
4 No sabes tu que desde a antigidade, desde que o homem foi posto sobre a terra,
5 o triunfo dos inquos  breve, e a alegria dos mpios  apenas dum momento?
6 Ainda que a sua exaltao suba at o cu, e a sua cabea chegue at as nuvens,
7 contudo, como o seu prprio esterco, perecer para sempre; e os que o viam perguntaro: Onde est?
8 Dissipar-se- como um sonho, e no ser achado; ser afugentado qual uma viso da noite.
9 Os olhos que o viam no o vero mais, nem o seu lugar o contemplar mais.
10 Os seus filhos procuraro o favor dos pobres, e as suas mos restituiro os seus lucros ilcitos.
11 Os seus ossos esto cheios do vigor da sua juventude, mas este se deitar com ele no p.
12 Ainda que o mal lhe seja doce na boca, ainda que ele o esconda debaixo da sua lngua,
13 ainda que no o queira largar, antes o retenha na sua boca,
14 contudo a sua comida se transforma nas suas entranhas; dentro dele se torna em fel de spides.
15 Engoliu riquezas, mas vomit-las-; do ventre dele Deus as lanar.
16 Veneno de spides sorver, lngua de vbora o matar.
17 No ver as correntes, os rios e os ribeiros de mel e de manteiga.
18 O que adquiriu pelo trabalho, isso restituir, e no o engolir; no se regozijar conforme a fazenda que ajuntou.
19 Pois que oprimiu e desamparou os pobres, e roubou a casa que no edificou.
20 Porquanto no houve limite  sua cobia, nada salvar daquilo em que se deleita.
21 Nada escapou  sua voracidade; pelo que a sua prosperidade no perdurar.
22 Na plenitude da sua abastana, estar angustiado; toda a fora da misria vir sobre ele.
23 Mesmo estando ele a encher o seu estmago, Deus mandar sobre ele o ardor da sua ira, que far chover sobre ele quando for 
comer.
24 Ainda que fuja das armas de ferro, o arco de bronze o atravessar.
25 Ele arranca do seu corpo a flecha, que sai resplandecente do seu fel; terrores vm sobre ele.
26 Todas as trevas so reservadas paro os seus tesouros; um fogo no assoprado o consumir, e devorar o que ficar na sua tenda.
27 Os cus revelaro a sua iniqidade, e contra ele a terra se levantar.
28 As rendas de sua casa ir-se-o; no dia da ira de Deus todas se derramaro.
29 Esta, da parte de Deus,  a poro do mpio; esta  a herana que Deus lhe reserva.
J [21]
1 Ento J respondeu:
2 Ouvi atentamente as minhas palavras; seja isto a vossa consolao.
3 Sofrei-me, e eu falarei; e, havendo eu falado, zombai.
4  porventura do homem que eu me queixo? Mas, ainda que assim fosse, no teria motivo de me impacientar?
5 Olhai para mim, e pasmai, e ponde a mo sobre a boca.
6 Quando me lembro disto, me perturbo, e a minha carne estremece de horror.
7 Por que razo vivem os mpios, envelhecem, e ainda se robustecem em poder?
8 Os seus filhos se estabelecem  vista deles, e os seus descendentes perante os seus olhos.
9 As suas casas esto em paz, sem temor, e a vara de Deus no est sobre eles.
10 O seu touro gera, e no falha; pare a sua vaca, e no aborta.
11 Eles fazem sair os seus pequeninos, como a um rebanho, e suas crianas andam saltando.
12 Levantam a voz, ao som do tamboril e da harpa, e regozijam-se ao som da flauta.
13 Na prosperidade passam os seus dias, e num momento descem ao Seol.
14 Eles dizem a Deus: retira-te de ns, pois no desejamos ter conhecimento dos teus caminhos.
15 Que  o Todo-Poderoso, para que ns o sirvamos? E que nos aproveitar, se lhe fizermos oraes?
16 Vede, porm, que eles no tm na mo a prosperidade; esteja longe de mim o conselho dos mpios!
17 Quantas vezes sucede que se apague a lmpada dos mpios? que lhes sobrevenha a sua destruio? que Deus na sua ira lhes reparta 
dores?
18 que eles sejam como a palha diante do vento, e como a pragana, que o redemoinho arrebata?
19 Deus, dizeis vs, reserva a iniqidade do pai para seus filhos, mas  a ele mesmo que Deus deveria punir, para que o conhea.
20 Vejam os seus prprios olhos a sua ruina, e beba ele do furor do Todo-Poderoso.
21 Pois, que lhe importa a sua casa depois de morto, quando lhe for cortado o nmero dos seus meses?
22 Acaso se ensinar cincia a Deus, a ele que julga os excelsos?
23 Um morre em plena prosperidade, inteiramente sossegado e tranqilo;
24 com os seus baldes cheios de leite, e a medula dos seus ossos umedecida.
25 Outro, ao contrrio, morre em amargura de alma, no havendo provado do bem.
26 Juntamente jazem no p, e os vermes os cobrem.
27 Eis que conheo os vossos pensamentos, e os maus intentos com que me fazeis injustia.
28 Pois dizeis: Onde est a casa do prncipe, e onde a tenda em que morava o mpio?
29 Porventura no perguntastes aos viandantes? e no aceitais o seu testemunho,
30 de que o mau  preservado no dia da destruio, e poupado no dia do furor?
31 Quem acusar diante dele o seu caminho? e quem lhe dar o pago do que fez?
32 Ele  levado para a sepultura, e vigiam-lhe o tmulo.
33 Os torres do vale lhe so doces, e o seguiro todos os homens, como ele o fez aos inumerveis que o precederam.
34 Como, pois, me ofereceis consolaes vs, quando nas vossas respostas s resta falsidade?
J [22]
1 Ento respondeu Elifaz, o temanita:
2 Pode o homem ser de algum proveito a Deus? Antes a si mesmo  que o prudente ser proveitoso.
3 Tem o Todo-Poderoso prazer em que tu sejas justo, ou lucro em que tu faas perfeitos os teus caminhos?
4  por causa da tua reverncia que te repreende, ou que entra contigo em juzo?
5 No  grande a tua malcia, e sem termo as tuas iniqidades?
6 Pois sem causa tomaste penhores a teus irmos e aos nus despojaste dos vestidos.
7 No deste ao cansado gua a beber, e ao faminto retiveste o po.
8 Mas ao poderoso pertencia a terra, e o homem acatado habitava nela.
9 Despediste vazias as vivas, e os braos dos rfos foram quebrados.
10 Por isso  que ests cercado de laos, e te perturba um pavor repentino,
11 ou trevas de modo que nada podes ver, e a inundao de guas te cobre.
12 No est Deus na altura do cu? Olha para as mais altas estrelas, quo elevadas esto!
13 E dizes: Que sabe Deus? Pode ele julgar atravs da escurido?
14 Grossas nuvens o encobrem, de modo que no pode ver; e ele passeia em volta da abbada do cu.
15 Queres seguir a vereda antiga, que pisaram os homens inquos?
16 Os quais foram arrebatados antes do seu tempo; e o seu fundamento se derramou qual um rio.
17 Diziam a Deus: retira-te de ns; e ainda: Que  que o Todo-Poderoso nos pode fazer?
18 Contudo ele encheu de bens as suas casas. Mas longe de mim estejam os conselhos dos mpios!
19 Os justos o vem, e se alegram: e os inocentes escarnecem deles,
20 dizendo: Na verdade so exterminados os nossos adversrios, e o fogo consumiu o que deixaram.
21 Apega-te, pois, a Deus, e tem paz, e assim te sobrevir o bem.
22 Aceita, peo-te, a lei da sua boca, e pe as suas palavras no teu corao.
23 Se te voltares para o Todo-Poderoso, sers edificado; se lanares a iniqidade longe da tua tenda,
24 e deitares o teu tesouro no p, e o ouro de Ofir entre as pedras dos ribeiros,
25 ento o Todo-Poderoso ser o teu tesouro, e a tua prata preciosa.
26 Pois ento te deleitars no Todo-Poderoso, e levantars o teu rosto para Deus.
27 Tu orars a ele, e ele te ouvir; e pagars os teus votos.
28 Tambm determinars algum negcio, e ser-te- firme, e a luz brilhar em teus caminhos.
29 Quando te abaterem, dirs: haja exaltao! E Deus salvar ao humilde.
30 E livrar at o que no  inocente, que ser libertado pela pureza de tuas mos.
J [23]
1 Ento J respondeu:
2 Ainda hoje a minha queixa est em amargura; o peso da mo dele  maior do que o meu gemido.
3 Ah, se eu soubesse onde encontr-lo, e pudesse chegar ao seu tribunal!
4 Exporia ante ele a minha causa, e encheria a minha boca de argumentos.
5 Saberia as palavras com que ele me respondesse, e entenderia o que me dissesse.
6 Acaso contenderia ele comigo segundo a grandeza do seu poder? No; antes ele me daria ouvidos.
7 Ali o reto pleitearia com ele, e eu seria absolvido para sempre por meu Juiz.
8 Eis que vou adiante, mas no est ali; volto para trs, e no o percebo;
9 procuro-o  esquerda, onde ele opera, mas no o vejo; viro-me para a direita, e no o diviso.
10 Mas ele sabe o caminho por que eu ando; provando-me ele, sairei como o ouro.
11 Os meus ps se mantiveram nas suas pisadas; guardei o seu caminho, e no me desviei dele.
12 Nunca me apartei do preceito dos seus lbios, e escondi no meu peito as palavras da sua boca.
13 Mas ele est resolvido; quem ento pode desvi-lo? E o que ele quiser, isso far.
14 Pois cumprir o que est ordenado a meu respeito, e muitas coisas como estas ainda tem consigo.
15 Por isso me perturbo diante dele; e quando considero, tenho medo dele.
16 Deus macerou o meu corao; o Todo-Poderoso me perturbou.
17 Pois no estou desfalecido por causa das trevas, nem porque a escurido cobre o meu rosto.
J [24]
1 Por que o Todo-Poderoso no designa tempos? e por que os que o conhecem no vem os seus dias?
2 H os que removem os limites; roubam os rebanhos, e os apascentam.
3 Levam o jumento do rfo, tomam em penhor o boi da viva.
4 Desviam do caminho os necessitados; e os oprimidos da terra juntos se escondem.
5 Eis que, como jumentos monteses no deserto, saem eles ao seu trabalho, procurando no ermo a presa que lhes sirva de sustento para 
seus filhos.
6 No campo segam o seu pasto, e vindimam a vinha do mpio.
7 Passam a noite nus, sem roupa, no tendo coberta contra o frio.
8 Pelas chuvas das montanhas so molhados e, por falta de abrigo, abraam-se com as rochas.
9 H os que arrancam do peito o rfo, e tomam o penhor do pobre;
10 fazem que estes andem nus, sem roupa, e, embora famintos, carreguem os molhos.
11 Espremem o azeite dentro dos muros daqueles homens; pisam os seus lagares, e ainda tm sede.
12 Dentro das cidades gemem os moribundos, e a alma dos feridos clama; e contudo Deus no considera o seu clamor.
13 H os que se revoltam contra a luz; no conhecem os caminhos dela, e no permanecem nas suas veredas.
14 O homicida se levanta de madrugada, mata o pobre e o necessitado, e de noite torna-se ladro.
15 Tambm os olhos do adltero aguardam o crepsculo, dizendo: Ningum me ver; e disfara o rosto.
16 Nas trevas minam as casas; de dia se conservam encerrados; no conhecem a luz.
17 Pois para eles a profunda escurido  a sua manh; porque so amigos das trevas espessas.
18 So levados ligeiramente sobre a face das guas; maldita  a sua poro sobre a terra; no tornam pelo caminho das vinhas.
19 A sequido e o calor desfazem as, guas da neve; assim faz o Seol aos que pecaram.
20 A madre se esquecer dele; os vermes o comero gostosamente; no ser mais lembrado; e a iniqidade se quebrar como rvore.
21 Ele despoja a estril que no d  luz, e no faz bem  viva.
22 Todavia Deus prolonga a vida dos valentes com a sua fora; levantam-se quando haviam desesperado da vida.
23 Se ele lhes d descanso, estribam-se, nisso; e os seus olhos esto sobre os caminhos deles.
24 Eles se exaltam, mas logo desaparecem; so abatidos, colhidos como os demais, e cortados como as espigas do trigo.
25 Se no  assim, quem me desmentir e desfar as minhas palavras?
J [25]
1 Ento respondeu Bildade, o suta:
2 Com Deus esto domnio e temor; ele faz reinar a paz nas suas alturas.
3 Acaso tm nmero os seus exrcitos? E sobre quem no se levanta a sua luz?
4 Como, pois, pode o homem ser justo diante de Deus, e como pode ser puro aquele que nasce da mulher?
5 Eis que at a lua no tem brilho, e as estrelas no so puras aos olhos dele;
6 quanto menos o homem, que  um verme, e o filho do homem, que  um vermezinho!
J [26]
1 Ento J respondeu:
2 Como tens ajudado ao que no tem fora e sustentado o brao que no tem vigor!
3 como tens aconselhado ao que no tem sabedoria, e plenamente tens revelado o verdadeiro conhecimento!
4 Para quem proferiste palavras? E de quem  o esprito que saiu de ti?
5 Os mortos tremem debaixo das guas, com os que ali habitam.
6 O Seol est nu perante Deus, e no h coberta para o Abadom.
7 Ele estende o norte sobre o vazio; suspende a terra sobre o nada.
8 Prende as guas em suas densas nuvens, e a nuvem no se rasga debaixo delas.
9 Encobre a face do seu trono, e sobre ele estende a sua nuvem.
10 Marcou um limite circular sobre a superfcie das guas, onde a luz e as trevas se confinam.
11 As colunas do cu tremem, e se espantam da sua ameaa.
12 Com o seu poder fez sossegar o mar, e com o seu entendimento abateu a Raabe.
13 Pelo seu sopro ornou o cu; a sua mo traspassou a serpente veloz.
14 Eis que essas coisas so apenas as orlas dos seus caminhos; e quo pequeno  o sussurro que dele, ouvimos! Mas o trovo do seu 
poder, quem o poder entender?
J [27]
1 E prosseguindo J em seu discurso, disse:
2 Vive Deus, que me tirou o direito, e o Todo-Poderoso, que me amargurou a alma;
3 enquanto em mim houver alento, e o sopro de Deus no meu nariz,
4 no falaro os meus lbios iniqidade, nem a minha lngua pronunciar engano.
5 Longe de mim que eu vos d razo; at que eu morra, nunca apartarei de mim a minha integridade.
6  minha justia me apegarei e no a largarei; o meu corao no reprova dia algum da minha vida.
7 Seja como o mpio o meu inimigo, e como o perverso aquele que se levantar contra mim.
8 Pois qual  a esperana do mpio, quando Deus o cortar, quando Deus lhe arrebatar a alma?
9 Acaso Deus lhe ouvir o clamor, sobrevindo-lhe a tribulao?
10 Deleitar-se- no Todo-Poderoso, ou invocar a Deus em todo o tempo?
11 Ensinar-vos-ei acerca do poder de Deus, e no vos encobrirei o que est com o Todo-Poderoso.
12 Eis que todos vs j vistes isso; por que, pois, vos entregais completamente  vaidade?
13 Esta  da parte de Deus a poro do mpio, e a herana que os opressores recebem do Todo-Poderoso:
14 Se os seus filhos se multiplicarem, ser para a espada; e a sua prole no se fartar de po.
15 Os que ficarem dele, pela peste sero sepultados, e as suas vivas no choraro.
16 Embora amontoe prata como p, e acumule vestes como barro,
17 ele as pode acumular, mas o justo as vestir, e o inocente repartir a prata.
18 A casa que ele edifica  como a teia da aranha, e como a cabana que o guarda faz.
19 Rico se deita, mas no o far mais; abre os seus olhos, e j se foi a sua riqueza.
20 Pavores o alcanam como um dilvio; de noite o arrebata a tempestade.
21 O vento oriental leva-o, e ele se vai; sim, varre-o com mpeto do seu lugar:
22 Pois atira contra ele, e no o poupa, e ele foge precipitadamente do seu poder.
23 Bate palmas contra ele, e assobia contra ele do seu lugar.
J [28]
1 Na verdade, h minas donde se extrai a prata, e tambm lugar onde se refina o ouro:
2 O ferro tira-se da terra, e da pedra se funde o cobre.
3 Os homens pem termo s trevas, e at os ltimos confins exploram as pedras na escurido e nas trevas mais densas.
4 Abrem um poo de mina longe do lugar onde habitam; so esquecidos pelos viajantes, ficando pendentes longe dos homens, e 
oscilam de um lado para o outro.
5 Quanto  terra, dela procede o po, mas por baixo  revolvida como por fogo.
6 As suas pedras so o lugar de safiras, e tm p de ouro.
7 A ave de rapina no conhece essa vereda, e no a viram os olhos do falco.
8 Nunca a pisaram feras altivas, nem o feroz leo passou por ela.
9 O homem estende a mo contra a pederneira, e revolve os montes desde as suas razes.
10 Corta canais nas pedras, e os seus olhos descobrem todas as coisas preciosas.
11 Ele tapa os veios d'gua para que no gotejem; e tira para a luz o que estava escondido.
12 Mas onde se achar a sabedoria? E onde est o lugar do entendimento?
13 O homem no lhe conhece o caminho; nem se acha ela na terra dos viventes.
14 O abismo diz: No est em mim; e o mar diz: Ela no est comigo.
15 No pode ser comprada com ouro fino, nem a peso de prata se trocar.
16 Nem se pode avaliar em ouro fino de Ofir, nem em pedras preciosas de berilo, ou safira.
17 Com ela no se pode comparar o ouro ou o vidro; nem se trocara por jias de ouro fino.
18 No se far meno de coral nem de cristal; porque a aquisio da sabedoria  melhor que a das prolas.
19 No se lhe igualar o topzio da Etipia, nem se pode comprar por ouro puro.
20 Donde, pois, vem a sabedoria? Onde est o lugar do entendimento?
21 Est encoberta aos olhos de todo vivente, e oculta s aves do cu.
22 O Abadom e a morte dizem: Ouvimos com os nossos ouvidos um rumor dela.
23 Deus entende o seu caminho, e ele sabe o seu lugar.
24 Porque ele perscruta at as extremidades da terra, sim, ele v tudo o que h debaixo do cu.
25 Quando regulou o peso do vento, e fixou a medida das guas;
26 quando prescreveu leis para a chuva e caminho para o relmpago dos troves;
27 ento viu a sabedoria e a manifestou; estabeleceu-a, e tambm a esquadrinhou.
28 E disse ao homem: Eis que o temor do Senhor  a sabedoria, e o apartar-se do mal  o entendimento.
J [29]
1 E prosseguindo J no seu discurso, disse:
2 Ah! quem me dera ser como eu fui nos meses do passado, como nos dias em que Deus me guardava;
3 quando a sua lmpada luzia sobre o minha cabea, e eu com a sua luz caminhava atravs das trevas;
4 como era nos dias do meu vigor, quando o ntimo favor de Deus estava sobre a minha tenda;
5 quando o Todo-Poderoso ainda estava comigo, e os meus filhos em redor de mim;
6 quando os meus passos eram banhados em leite, e a rocha me deitava ribeiros de azeite!
7 Quando eu saa para a porta da cidade, e na praa preparava a minha cadeira,
8 os moos me viam e se escondiam, e os idosos se levantavam e se punham em p;
9 os prncipes continham as suas palavras, e punham a mo sobre a sua boca;
10 a voz dos nobres emudecia, e a lngua se lhes pegava ao paladar.
11 Pois, ouvindo-me algum ouvido, me tinha por bem-aventurado; e vendo-me algum olho, dava testemunho de mim;
12 porque eu livrava o miservel que clamava, e o rfo que no tinha quem o socorresse.
13 A bno do que estava a perecer vinha sobre mim, e eu fazia rejubilar-se o corao da viva.
14 vestia-me da retido, e ela se vestia de mim; como manto e diadema era a minha justia.
15 Fazia-me olhos para o cego, e ps para o coxo;
16 dos necessitados era pai, e a causa do que me era desconhecido examinava com diligncia.
17 E quebrava os caninos do perverso, e arrancava-lhe a presa dentre os dentes.
18 Ento dizia eu: No meu ninho expirarei, e multiplicarei os meus dias como a areia;
19 as minhas razes se estendem at as guas, e o orvalho fica a noite toda sobre os meus ramos;
20 a minha honra se renova em mim, e o meu arco se revigora na minha mo.
21 A mim me ouviam e esperavam, e em silncio atendiam ao meu conselho.
22 Depois de eu falar, nada replicavam, e minha palavra destilava sobre eles;
23 esperavam-me como  chuva; e abriam a sua boca como  chuva tardia.
24 Eu lhes sorria quando no tinham confiana; e no desprezavam a luz do meu rosto;
25 eu lhes escolhia o caminho, assentava-me como chefe, e habitava como rei entre as suas tropas, como aquele que consola os 
aflitos.
J [30]
1 Mas agora zombam de mim os de menos idade do que eu, cujos pais teria eu desdenhado de pr com os ces do meu rebanho.
2 Pois de que me serviria a fora das suas mos, homens nos quais j pereceu o vigor?
3 De mngua e fome emagrecem; andam roendo pelo deserto, lugar de runas e desolao.
4 Apanham malvas junto aos arbustos, e o seu mantimento so as razes dos zimbros.
5 So expulsos do meio dos homens, que gritam atrs deles, como atrs de um ladro.
6 Tm que habitar nos desfiladeiros sombrios, nas cavernas da terra e dos penhascos.
7 Bramam entre os arbustos, ajuntam-se debaixo das urtigas.
8 So filhos de insensatos, filhos de gente sem nome; da terra foram enxotados.
9 Mas agora vim a ser a sua cano, e lhes sirvo de provrbio.
10 Eles me abominam, afastam-se de mim, e no meu rosto no se privam de cuspir.
11 Porquanto Deus desatou a minha corda e me humilhou, eles sacudiram de si o freio perante o meu rosto.
12  direita levanta-se gente vil; empurram os meus ps, e contra mim erigem os seus caminhos de destruio.
13 Estragam a minha vereda, promovem a minha calamidade; no h quem os detenha.
14 Vm como por uma grande brecha, por entre as runas se precipitam.
15 Sobrevieram-me pavores;  perseguida a minha honra como pelo vento; e como nuvem passou a minha felicidade.
16 E agora dentro de mim se derrama a minha alma; os dias da aflio se apoderaram de mim.
17 De noite me so traspassados os ossos, e o mal que me corri no descansa.
18 Pela violncia do mal est desfigurada a minha veste; como a gola da minha tnica, me aperta.
19 Ele me lanou na lama, e fiquei semelhante ao p e  cinza.
20 Clamo a ti, e no me respondes; ponho-me em p, e no atentas para mim.
21 Tornas-te cruel para comigo; com a fora da tua mo me persegues.
22 Levantas-me sobre o vento, fazes-me cavalgar sobre ele, e dissolves-me na tempestade.
23 Pois eu sei que me levars  morte, e  casa do ajuntamento destinada a todos os viventes.
24 Contudo no estende a mo quem est a cair? ou no clama por socorro na sua calamidade?
25 No chorava eu sobre aquele que estava aflito? ou no se angustiava a minha alma pelo necessitado?
26 Todavia aguardando eu o bem, eis que me veio o mal, e esperando eu a luz, veio a escurido.
27 As minhas entranhas fervem e no descansam; os dias da aflio me surpreenderam.
28 Denegrido ando, mas no do sol; levanto-me na congregao, e clamo por socorro.
29 Tornei-me irmo dos chacais, e companheiro dos avestruzes.
30 A minha pele enegrece e se me cai, e os meus ossos esto queimados do calor.
31 Pelo que se tornou em pranto a minha harpa, e a minha flauta em voz dos que choram.
J [31]
1 Fiz pacto com os meus olhos; como, pois, os fixaria numa virgem?
2 Pois que poro teria eu de Deus l de cima, e que herana do Todo-Poderoso l do alto?
3 No  a destruio para o perverso, e o desastre para os obradores da iniqidade?
4 No v ele os meus caminhos, e no conta todos os meus passos?
5 Se eu tenho andado com falsidade, e se o meu p se tem apressado aps o engano
6 (pese-me Deus em balanas fiis, e conhea a minha integridade);
7 se os meus passos se tm desviado do caminho, e se o meu corao tem seguido os meus olhos, e se qualquer mancha se tem pegado 
s minhas mos;
8 ento semeie eu e outro coma, e seja arrancado o produto do meu campo.
9 Se o meu corao se deixou seduzir por causa duma mulher, ou se eu tenho armado traio  porta do meu prximo,
10 ento moa minha mulher para outro, e outros se encurvem sobre ela.
11 Pois isso seria um crime infame; sim, isso seria uma iniqidade para ser punida pelos juzes;
12 porque seria fogo que consome at Abadom, e desarraigaria toda a minha renda.
13 Se desprezei o direito do meu servo ou da minha serva, quando eles pleitearam comigo,
14 ento que faria eu quando Deus se levantasse? E quando ele me viesse inquirir, que lhe responderia?
15 Aquele que me formou no ventre no o fez tambm a meu servo? E no foi um que nos plasmou na madre?
16 Se tenho negado aos pobres o que desejavam, ou feito desfalecer os olhos da viva,
17 ou se tenho comido sozinho o meu bocado, e no tem comido dele o rfo tambm
18 (pois desde a minha mocidade o rfo cresceu comigo como com seu pai, e a viva, tenho-a guiado desde o ventre de minha me);
19 se tenho visto algum perecer por falta de roupa, ou o necessitado no ter com que se cobrir;
20 se os seus lombos no me abenoaram, se ele no se aquentava com os velos dos meus cordeiros;
21 se levantei a minha mo contra o rfo, porque na porta via a minha ajuda;
22 ento caia do ombro a minha espdua, e separe-se o meu brao da sua juntura.
23 Pois a calamidade vinda de Deus seria para mim um horror, e eu no poderia suportar a sua majestade.
24 Se do ouro fiz a minha esperana, ou disse ao ouro fino: Tu s a minha confiana;
25 se me regozijei por ser grande a minha riqueza, e por ter a minha mo alcana o muito;
26 se olhei para o sol, quando resplandecia, ou para a lua, quando ela caminhava em esplendor,
27 e o meu corao se deixou enganar em oculto, e a minha boca beijou a minha mo;
28 isso tambm seria uma iniqidade para ser punida pelos juzes; pois assim teria negado a Deus que est l em cima.
29 Se me regozijei com a runa do que me tem dio, e se exultei quando o mal lhe sobreveio
30 (mas eu no deixei pecar a minha boca, pedindo com imprecao a sua morte);
31 se as pessoas da minha tenda no disseram: Quem h que no se tenha saciado com carne provida por ele?
32 O estrangeiro no passava a noite na rua; mas eu abria as minhas portas ao viandante;
33 se, como Ado, encobri as minhas transgresses, ocultando a minha iniqidade no meu seio,
34 porque tinha medo da grande multido, e o desprezo das famlias me aterrorizava, de modo que me calei, e no sa da porta...
35 Ah! quem me dera um que me ouvisse! Eis a minha defesa, que me responda o Todo-Poderoso! Oxal tivesse eu a acusao escrita 
pelo meu adversrio!
36 Por certo eu a levaria sobre o ombro, sobre mim a ataria como coroa.
37 Eu lhe daria conta dos meus passos; como prncipe me chegaria a ele
38 Se a minha terra clamar contra mim, e se os seus sulcos juntamente chorarem;
39 se comi os seus frutos sem dinheiro, ou se fiz que morressem os seus donos;
40 por trigo me produza cardos, e por cevada joio. Acabaram-se as palavras de J.
J [32]
1 E aqueles trs homens cessaram de responder a J; porque era justo aos seus prprios olhos.
2 Ento se acendeu a ira de Eli, filho de Baraquel, o buzita, da famlia de Ro; acendeu-se a sua ira contra J, porque este se 
justificava a si mesmo, e no a Deus.
3 Tambm contra os seus trs amigos se acendeu a sua ira, porque no tinham achado o que responder, e contudo tinham condenado a 
J.
4 Ora, Eli havia esperado para falar a J, porque eles eram mais idosos do que ele.
5 Quando, pois, Eli viu que no havia resposta na boca daqueles trs homens, acendeu-se-lhe a ira.
6 Ento respondeu Eli, filho de Baraquel, o buzita, dizendo: Eu sou de pouca idade, e vs sois, idosos; arreceei-me e temi de vos 
declarar a minha opinio.
7 Dizia eu: Falem os dias, e a multido dos anos ensine a sabedoria.
8 H, porm, um esprito no homem, e o sopro do Todo-Poderoso o faz entendido.
9 No so os velhos que so os sbios, nem os ancios que entendem o que  reto.
10 Pelo que digo: Ouvi-me, e tambm eu declararei a minha opinio.
11 Eis que aguardei as vossas palavras, escutei as vossas consideraes, enquanto buscveis o que dizer.
12 Eu, pois, vos prestava toda a minha ateno, e eis que no houve entre vs quem convencesse a J, nem quem respondesse s suas 
palavras;
13 pelo que no digais: Achamos a sabedoria; Deus  que pode derrub-lo, e no o homem.
14 Ora ele no dirigiu contra mim palavra alguma, nem lhe responderei com as vossas palavras.
15 Esto pasmados, no respondem mais; faltam-lhes as palavras.
16 Hei de eu esperar, porque eles no falam, porque j pararam, e no respondem mais?
17 Eu tambm darei a minha resposta; eu tambm declararei a minha opinio.
18 Pois estou cheio de palavras; o esprito dentro de mim me constrange.
19 Eis que o meu peito  como o mosto, sem respiradouro, como odres novos que esto para arrebentar.
20 Falarei, para que ache alvio; abrirei os meus lbios e responderei:
21 Que no faa eu acepo de pessoas, nem use de lisonjas para com o homem.
22 Porque no sei usar de lisonjas; do contrrio, em breve me levaria o meu Criador.
J [33]
1 Ouve, pois, as minhas palavras,  J, e d ouvidos a todas as minhas declaraes.
2 Eis que j abri a minha boca; j falou a minha lngua debaixo do meu paladar.
3 As minhas palavras declaram a integridade do meu corao, e os meus lbios falam com sinceridade o que sabem.
4 O Esprito de Deus me fez, e o sopro do Todo-Poderoso me d vida.
5 Se podes, responde-me; pe as tuas palavras em ordem diante de mim; apresenta-te.
6 Eis que diante de Deus sou o que tu s; eu tambm fui formado do barro.
7 Eis que no te perturbar nenhum medo de mim, nem ser pesada sobre ti a minha mo.
8 Na verdade tu falaste aos meus ouvidos, e eu ouvi a voz das tuas palavras. Dizias:
9 Limpo estou, sem transgresso; puro sou, e no h em mim iniqidade.
10 Eis que Deus procura motivos de inimizade contra mim, e me considera como o seu inimigo.
11 Pe no tronco os meus ps, e observa todas as minhas veredas.
12 Eis que nisso no tens razo; eu te responderei; porque Deus e maior do que o homem.
13 Por que razo contendes com ele por no dar conta dos seus atos?
14 Pois Deus fala de um modo, e ainda de outro se o homem no lhe atende.
15 Em sonho ou em viso de noite, quando cai sono profundo sobre os homens, quando adormecem na cama;
16 ento abre os ouvidos dos homens, e os atemoriza com avisos,
17 para apartar o homem do seu desgnio, e esconder do homem a soberba;
18 para reter a sua alma da cova, e a sua vida de passar pela espada.
19 Tambm  castigado na sua cama com dores, e com incessante contenda nos seus ossos;
20 de modo que a sua vida abomina o po, e a sua alma a comida apetecvel.
21 Consome-se a sua carne, de maneira que desaparece, e os seus ossos, que no se viam, agora aparecem.
22 A sua alma se vai chegando  cova, e a sua vida aos que trazem a morte.
23 Se com ele, pois, houver um anjo, um intrprete, um entre mil, para declarar ao homem o que lhe  justo,
24 ento ter compaixo dele, e lhe dir: Livra-o, para que no desa  cova; j achei resgate.
25 Sua carne se reverdecer mais do que na sua infncia; e ele tornar aos dias da sua juventude.
26 Deveras orar a Deus, que lhe ser propcio, e o far ver a sua face com jbilo, e restituir ao homem a sua justia.
27 Cantar diante dos homens, e dir: Pequei, e perverti o direito, o que de nada me aproveitou.
28 Mas Deus livrou a minha alma de ir para a cova, e a minha vida ver a luz.
29 Eis que tudo isto Deus faz duas e trs vezes para com o homem,
30 para reconduzir a sua alma da cova, a fim de que seja iluminado com a luz dos viventes.
31 Escuta, pois,  J, ouve-me; cala-te, e eu falarei.
32 Se tens alguma coisa que dizer, responde-me; fala, porque desejo justificar-te.
33 Se no, escuta-me tu; cala-te, e ensinar-te-ei a sabedoria.
J [34]
1 Prosseguiu Eli, dizendo:
2 Ouvi, vs, sbios, as minhas palavras; e vs, entendidos, inclinai os ouvidos para mim.
3 Pois o ouvido prova as palavras, como o paladar experimenta a comida.
4 O que  direito escolhamos para ns; e conheamos entre ns o que  bom.
5 Pois J disse: Sou justo, e Deus tirou-me o direito.
6 Apesar do meu direito, sou considerado mentiroso; a minha ferida  incurvel, embora eu esteja sem transgresso.
7 Que homem h como J, que bebe o escrnio como gua,
8 que anda na companhia dos malfeitores, e caminha com homens mpios?
9 Porque disse: De nada aproveita ao homem o comprazer-se em Deus.
10 Pelo que ouvi-me, vs homens de entendimento: longe de Deus o praticar a maldade, e do Todo-Poderoso o cometer a iniqidade!
11 Pois, segundo a obra do homem, ele lhe retribui, e faz a cada um segundo o seu caminho.
12 Na verdade, Deus no proceder impiamente, nem o Todo-Poderoso perverter o juzo.
13 Quem lhe entregou o governo da terra? E quem lhe deu autoridade sobre o mundo todo?
14 Se ele retirasse para si o seu esprito, e recolhesse para si o seu flego,
15 toda a carne juntamente expiraria, e o homem voltaria para o p.
16 Se, pois, h em ti entendimento, ouve isto, inclina os ouvidos s palavras que profiro.
17 Acaso quem odeia o direito governar? Querers tu condenar aquele que  justo e poderoso?
18 aquele que diz a um rei:  vil? e aos prncipes:  mpios?
19 que no faz acepo das pessoas de prncipes, nem estima o rico mais do que o pobre; porque todos so obra de suas mos?
20 Eles num momento morrem; e  meia-noite os povos so perturbados, e passam, e os poderosos so levados no por mo humana.
21 Porque os seus olhos esto sobre os caminhos de cada um, e ele v todos os seus passos.
22 No h escurido nem densas trevas, onde se escondam os obradores da iniqidade.
23 Porque Deus no precisa observar por muito tempo o homem para que este comparea perante ele em juzo.
24 Ele quebranta os fortes, sem inquirio, e pe outros em lugar deles.
25 Pois conhecendo ele as suas obras, de noite os transtorna, e ficam esmagados.
26 Ele os fere como mpios,  vista dos circunstantes;
27 porquanto se desviaram dele, e no quiseram compreender nenhum de seus caminhos,
28 de sorte que o clamor do pobre subisse at ele, e que ouvisse o clamor dos aflitos.
29 Se ele d tranqilidade, quem ento o condenar? Se ele encobrir o rosto, quem ento o poder contemplar, quer seja uma nao, 
quer seja um homem s?
30 para que o mpio no reine, e no haja quem iluda o povo.
31 Pois, quem jamais disse a Deus: Sofri, ainda que no pequei;
32 o que no vejo, ensina-me tu; se fiz alguma maldade, nunca mais a hei de fazer?
33 Ser a sua recompensa como queres, para que a recuses? Pois tu tens que fazer a escolha, e no eu; portanto fala o que sabes.
34 Os homens de entendimento dir-me-o, e o varo sbio, que me ouvir:
35 J fala sem conhecimento, e s suas palavras falta sabedoria.
36 Oxal que J fosse provado at o fim; porque responde como os inquos.
37 Porque ao seu pecado acrescenta a rebelio; entre ns bate as palmas, e multiplica contra Deus as suas palavras.
J [35]
1 Disse mais Eli:
2 Tens por direito dizeres: Maior  a minha justia do que a de Deus?
3 Porque dizes: Que me aproveita? Que proveito tenho mais do que se eu tivera pecado?
4 Eu te darei respostas, a ti e aos teus amigos contigo.
5 Atenta para os cus, e v; e contempla o firmamento que  mais alto do que tu.
6 Se pecares, que efetuars contra ele? Se as tuas transgresses se multiplicarem, que lhe fars com isso?
7 Se fores justo, que lhe dars, ou que receber ele da tua mo?
8 A tua impiedade poderia fazer mal a outro tal como tu; e a tua justia poderia aproveitar a um filho do homem.
9 Por causa da multido das opresses os homens clamam; clamam por socorro por causa do brao dos poderosos.
10 Mas ningum diz: Onde est Deus meu Criador, que inspira canes durante a noite;
11 que nos ensina mais do que aos animais da terra, e nos faz mais sbios do que as aves do cu?
12 Ali clamam, porm ele no responde, por causa da arrogncia os maus.
13 Certo  que Deus no ouve o grito da vaidade, nem para ela atentar o Todo-Poderoso.
14 Quanto menos quando tu dizes que no o vs. A causa est perante ele; por isso espera nele.
15 Mas agora, porque a sua ira ainda no se exerce, nem grandemente considera ele a arrogncia,
16 por isso abre J em vo a sua boca, e sem conhecimento multiplica palavras.
J [36]
1 Prosseguiu ainda Eli e disse:
2 Espera-me um pouco, e mostrar-te-ei que ainda h razes a favor de Deus.
3 De longe trarei o meu conhecimento, e ao meu criador atribuirei a justia.
4 Pois, na verdade, as minhas palavras no sero falsas; contigo est um que tem perfeito conhecimento.
5 Eis que Deus  mui poderoso, contudo a ningum despreza; grande  no poder de entendimento.
6 Ele no preserva a vida do mpio, mas faz justia aos aflitos.
7 Do justo no aparta os seus olhos; antes com os reis no trono os faz sentar para sempre, e assim so exaltados.
8 E se esto presos em grilhes, e amarrados com cordas de aflio,
9 ento lhes faz saber a obra deles, e as suas transgresses, porquanto se tm portado com soberba.
10 E abre-lhes o ouvido para a instruo, e ordena que se convertam da iniqidade.
11 Se o ouvirem, e o servirem, acabaro seus dias em prosperidade, e os seus anos em delcias.
12 Mas se no o ouvirem,  espada sero passados, e expiraro sem conhecimento.
13 Assim os mpios de corao amontoam, a sua ira; e quando Deus os pe em grilhes, no clamam por socorro.
14 Eles morrem na mocidade, e a sua vida perece entre as prostitutas.
15 Ao aflito livra por meio da sua aflio, e por meio da opresso lhe abre os ouvidos.
16 Assim tambm quer induzir-te da angstia para um lugar espaoso, em que no h aperto; e as iguarias da tua mesa sero cheias de 
gordura.
17 Mas tu ests cheio do juzo do mpio; o juzo e a justia tomam conta de ti.
18 Cuida, pois, para que a ira no te induza a escarnecer, nem te desvie a grandeza do resgate.
19 Prevalecer o teu clamor, ou todas as foras da tua fortaleza, para que no estejas em aperto?
20 No suspires pela noite, em que os povos sejam tomados do seu lugar.
21 Guarda-te, e no declines para a iniqidade; porquanto isso escolheste antes que a aflio.
22 Eis que Deus  excelso em seu poder; quem  ensinador como ele?
23 Quem lhe prescreveu o seu caminho? Ou quem poder dizer: Tu praticaste a injustia?
24 Lembra-te de engrandecer a sua obra, de que tm cantado os homens.
25 Todos os homens a vem; de longe a contempla o homem.
26 Eis que Deus  grande, e ns no o conhecemos, e o nmero dos seus anos no se pode esquadrinhar.
27 Pois atrai a si as gotas de gua, e do seu vapor as destila em chuva,
28 que as nuvens derramam e gotejam abundantemente sobre o homem.
29 Poder algum entender as dilataes das nuvens, e os troves do seu pavilho?
30 Eis que ao redor de si estende a sua luz, e cobre o fundo do mar.
31 Pois por estas coisas julga os povos e lhes d mantimento em abundncia.
32 Cobre as mos com o relmpago, e d-lhe ordem para que fira o alvo.
33 O fragor da tempestade d notcia dele; at o gado pressente a sua aproximao.
J [37]
1 Sobre isso tambm treme o meu corao, e salta do seu lugar.
2 Dai atentamente ouvidos ao estrondo da voz de Deus e ao sonido que sai da sua boca.
3 Ele o envia por debaixo de todo o cu, e o seu relmpago at os confins da terra.
4 Depois do relmpago ruge uma grande voz; ele troveja com a sua voz majestosa; e no retarda os raios, quando  ouvida a sua voz.
5 Com a sua voz troveja Deus maravilhosamente; faz grandes coisas, que ns no compreendemos.
6 Pois  neve diz: Cai sobre a terra; como tambm s chuvas e aos aguaceiros: Sede copiosos.
7 Ele sela as mos de todo homem, para que todos saibam que ele os fez.
8 E as feras entram nos esconderijos e ficam nos seus covis.
9 Da recmara do sul sai o tufo, e do norte o frio.
10 Ao sopro de Deus forma-se o gelo, e as largas guas so congeladas.
11 Tambm de umidade carrega as grossas nuvens; as nuvens espalham relmpagos.
12 Fazem evolues sob a sua direo, para efetuar tudo quanto lhes ordena sobre a superfcie do mundo habitvel:
13 seja para disciplina, ou para a sua terra, ou para beneficncia, que as faa vir.
14 A isto, J, inclina os teus ouvidos; pra e considera as obras maravilhosas de Deus.
15 Sabes tu como Deus lhes d as suas ordens, e faz resplandecer o relmpago da sua nuvem?
16 Compreendes o equilbrio das nuvens, e as maravilhas daquele que  perfeito nos conhecimentos;
17 tu cujas vestes so quentes, quando h calma sobre a terra por causa do vento sul?
18 Acaso podes, como ele, estender o firmamento, que  slido como um espelho fundido?
19 Ensina-nos o que lhe diremos; pois ns nada poderemos pr em boa ordem, por causa das trevas.
20 Contar-lhe-ia algum que eu quero falar. Ou desejaria um homem ser devorado?
21 E agora o homem no pode olhar para o sol, que resplandece no cu quando o vento, tendo passado, o deixa limpo.
22 Do norte vem o ureo esplendor; em Deus h tremenda majestade.
23 Quanto ao Todo-Poderoso, no o podemos compreender; grande  em poder e justia e pleno de retido; a ningum, pois, oprimir.
24 Por isso o temem os homens; ele no respeita os que se julgam sbios.
J [38]
1 Depois disso o Senhor respondeu a J dum redemoinho, dizendo:
2 Quem  este que escurece o conselho com palavras sem conhecimento?
3 Agora cinge os teus lombos, como homem; porque te perguntarei, e tu me responders.
4 Onde estavas tu, quando eu lanava os fundamentos da terra? Faze-mo saber, se tens entendimento.
5 Quem lhe fixou as medidas, se  que o sabes? ou quem a mediu com o cordel?
6 Sobre que foram firmadas as suas bases, ou quem lhe assentou a pedra de esquina,
7 quando juntas cantavam as estrelas da manh, e todos os filhos de Deus bradavam de jbilo?
8 Ou quem encerrou com portas o mar, quando este rompeu e saiu da madre;
9 quando eu lhe pus nuvens por vestidura, e escurido por faixas,
10 e lhe tracei limites, pondo-lhe portas e ferrolhos,
11 e lhe disse: At aqui virs, porm no mais adiante; e aqui se quebraro as tuas ondas orgulhosas?
12 Desde que comearam os teus dias, deste tu ordem  madrugada, ou mostraste  alva o seu lugar,
13 para que agarrasse nas extremidades da terra, e os mpios fossem sacudidos dela?
14 A terra se transforma como o barro sob o selo; e todas as coisas se assinalam como as cores dum vestido.
15 E dos mpios  retirada a sua luz, e o brao altivo se quebranta.
16 Acaso tu entraste at os mananciais do mar, ou passeaste pelos recessos do abismo?
17 Ou foram-te descobertas as portas da morte, ou viste as portas da sombra da morte?
18 Compreendeste a largura da terra? Faze-mo saber, se sabes tudo isso.
19 Onde est o caminho para a morada da luz? E, quanto s trevas, onde est o seu lugar,
20 para que s tragas aos seus limites, e para que saibas as veredas para a sua casa?
21 De certo tu o sabes, porque j ento eras nascido, e porque  grande o nmero dos teus dias!
22 Acaso entraste nos tesouros da neve, e viste os tesouros da saraiva,
23 que eu tenho reservado para o tempo da angstia, para o dia da peleja e da guerra?
24 Onde est o caminho para o lugar em que se reparte a luz, e se espalha o vento oriental sobre a terra?
25 Quem abriu canais para o aguaceiro, e um caminho para o relmpago do trovo;
26 para fazer cair chuva numa terra, onde no h ningum, e no deserto, em que no h gente;
27 para fartar a terra deserta e assolada, e para fazer crescer a tenra relva?
28 A chuva porventura tem pai? Ou quem gerou as gotas do orvalho?
29 Do ventre de quem saiu o gelo? E quem gerou a geada do cu?
30 Como pedra as guas se endurecem, e a superfcie do abismo se congela.
31 Podes atar as cadeias das Pliades, ou soltar os atilhos do Oriom?
32 Ou fazer sair as constelaes a seu tempo, e guiar a ursa com seus filhos?
33 Sabes tu as ordenanas dos cus, ou podes estabelecer o seu domnio sobre a terra?
34 Ou podes levantar a tua voz at as nuvens, para que a abundncia das guas te cubra?
35 Ou ordenars aos raios de modo que saiam? Eles te diro: Eis-nos aqui?
36 Quem ps sabedoria nas densas nuvens, ou quem deu entendimento ao meteoro?
37 Quem numerar as nuvens pela sabedoria? Ou os odres do cu, quem os esvaziar,
38 quando se funde o p em massa, e se pegam os torres uns aos outros?
39 Podes caar presa para a leoa, ou satisfazer a fome dos filhos dos lees,
40 quando se agacham nos covis, e esto  espreita nas covas?
41 Quem prepara ao corvo o seu alimento, quando os seus pintainhos clamam a Deus e andam vagueando, por no terem o que 
comer?
J [39]
1 Sabes tu o tempo do parto das cabras montesas, ou podes observar quando  que parem as coras?
2 Podes contar os meses que cumprem, ou sabes o tempo do seu parto?
3 Encurvam-se, do  luz as suas crias, lanam de si a sua prole.
4 Seus filhos enrijam, crescem no campo livre; saem, e no tornam para elas:
5 Quem despediu livre o jumento monts, e quem soltou as prises ao asno veloz,
6 ao qual dei o ermo por casa, e a terra salgada por morada?
7 Ele despreza o tumulto da cidade; no obedece os gritos do condutor.
8 O circuito das montanhas  o seu pasto, e anda buscando tudo o que est verde.
9 Querer o boi selvagem servir-te? ou ficar junto  tua manjedoura?
10 Podes amarrar o boi selvagem ao arado com uma corda, ou esterroar ele aps ti os vales?
11 Ou confiars nele, por ser grande a sua fora, ou deixars a seu cargo o teu trabalho?
12 Fiars dele que te torne o que semeaste e o recolha  tua eira?
13 Movem-se alegremente as asas da avestruz; mas  benigno o adorno da sua plumagem?
14 Pois ela deixa os seus ovos na terra, e os aquenta no p,
15 e se esquece de que algum p os pode pisar, ou de que a fera os pode calcar.
16 Endurece-se para com seus filhos, como se no fossem seus; embora se perca o seu trabalho, ela est sem temor;
17 porque Deus a privou de sabedoria, e no lhe repartiu entendimento.
18 Quando ela se levanta para correr, zomba do cavalo, e do cavaleiro.
19 Acaso deste fora ao cavalo, ou revestiste de fora o seu pescoo?
20 Fizeste-o pular como o gafanhoto? Terrvel  o fogoso respirar das suas ventas.
21 Escarva no vale, e folga na sua fora, e sai ao encontro dos armados.
22 Ri-se do temor, e no se espanta; e no torna atrs por causa da espada.
23 Sobre ele rangem a aljava, a lana cintilante e o dardo.
24 Tremendo e enfurecido devora a terra, e no se contm ao som da trombeta.
25 Toda vez que soa a trombeta, diz: Eia! E de longe cheira a guerra, e o trovo dos capites e os gritos.
26  pelo teu entendimento que se eleva o gavio, e estende as suas asas para o sul?
27 Ou se remonta a guia ao teu mandado, e pe no alto o seu ninho?
28 Mora nas penhas e ali tem a sua pousada, no cume das penhas, no lugar seguro.
29 Dali descobre a presa; seus olhos a avistam de longe.
30 Seus filhos chupam o sangue; e onde h mortos, ela a est.
J [40]
1 Disse mais o Senhor a J:
2 Contender contra o Todo-Poderoso o censurador? Quem assim argi a Deus, responda a estas coisas.
3 Ento J respondeu ao Senhor, e disse:
4 Eis que sou vil; que te responderia eu? Antes ponho a minha mo sobre a boca.
5 Uma vez tenho falado, e no replicarei; ou ainda duas vezes, porm no prosseguirei.
6 Ento, do meio do redemoinho, o Senhor respondeu a J:
7 Cinge agora os teus lombos como homem; eu te perguntarei a ti, e tu me responders.
8 Fars tu vo tambm o meu juzo, ou me condenars para te justificares a ti?
9 Ou tens brao como Deus; ou podes trovejar com uma voz como a dele?
10 Orna-te, pois, de excelncia e dignidade, e veste-te de glria e de esplendor.
11 Derrama as inundaes da tua ira, e atenta para todo soberbo, e abate-o.
12 Olha para todo soberbo, e humilha-o, e calca aos ps os mpios onde esto.
13 Esconde-os juntamente no p; ata-lhes os rostos no lugar escondido.
14 Ento tambm eu de ti confessarei que a tua mo direita te poder salvar.
15 Contempla agora o hipoptamo, que eu criei como a ti, que come a erva como o boi.
16 Eis que a sua fora est nos seus lombos, e o seu poder nos msculos do seu ventre.
17 Ele enrija a sua cauda como o cedro; os nervos das suas coxas so entretecidos.
18 Os seus ossos so como tubos de bronze, as suas costelas como barras de ferro.
19 Ele  obra prima dos caminhos de Deus; aquele que o fez o proveu da sua espada.
20 Em verdade os montes lhe produzem pasto, onde todos os animais do campo folgam.
21 Deita-se debaixo dos lotos, no esconderijo dos canaviais e no pntano.
22 Os lotos cobrem-no com sua sombra; os salgueiros do ribeiro o cercam.
23 Eis que se um rio trasborda, ele no treme; sente-se seguro ainda que o Jordo se levante at a sua boca.
24 Poder algum apanh-lo quando ele estiver de vigia, ou com laos lhe furar o nariz?
J [41]
1 Poders tirar com anzol o leviat, ou apertar-lhe a lngua com uma corda?
2 Poders meter-lhe uma corda de junco no nariz, ou com um gancho furar a sua queixada?
3 Porventura te far muitas splicas, ou brandamente te falar?
4 Far ele aliana contigo, ou o tomars tu por servo para sempre?
5 Brincars com ele, como se fora um pssaro, ou o prenders para tuas meninas?
6 Faro os scios de pesca trfico dele, ou o dividiro entre os negociantes?
7 Poders encher-lhe a pele de arpes, ou a cabea de fisgas?
8 Pe a tua mo sobre ele; lembra-te da peleja; nunca mais o fars!
9 Eis que  v a esperana de apanh-lo; pois no ser um homem derrubado s ao v-lo?
10 Ningum h to ousado, que se atreva a despert-lo; quem, pois,  aquele que pode erguer-se diante de mim?
11 Quem primeiro me deu a mim, para que eu haja de retribuir-lhe? Pois tudo quanto existe debaixo de todo cu  meu.
12 No me calarei a respeito dos seus membros, nem da sua grande fora, nem da graa da sua estrutura.
13 Quem lhe pode tirar o vestido exterior? Quem lhe penetrar a couraa dupla?
14 Quem jamais abriu as portas do seu rosto? Pois em roda dos seus dentes est o terror.
15 As suas fortes escamas so o seu orgulho, cada uma fechada como por um selo apertado.
16 Uma  outra se chega to perto, que nem o ar passa por entre elas.
17 Umas s outras se ligam; tanto aderem entre si, que no se podem separar.
18 Os seus espirros fazem resplandecer a luz, e os seus olhos so como as pestanas da alva.
19 Da sua boca saem tochas; fascas de fogo saltam dela.
20 Dos seus narizes procede fumaa, como de uma panela que ferve, e de juncos que ardem.
21 O seu hlito faz incender os carves, e da sua boca sai uma chama.
22 No seu pescoo reside a fora; e diante dele anda saltando o terror.
23 Os tecidos da sua carne esto pegados entre si; ela  firme sobre ele, no se pode mover.
24 O seu corao  firme como uma pedra; sim, firme como a pedra inferior duma m.
25 Quando ele se levanta, os valentes so atemorizados, e por causa da consternao ficam fora de si.
26 Se algum o atacar com a espada, essa no poder penetrar; nem tampouco a lana, nem o dardo, nem o arpo.
27 Ele considera o ferro como palha, e o bronze como pau podre.
28 A seta no o poder fazer fugir; para ele as pedras das fundas se tornam em restolho.
29 Os bastes so reputados como juncos, e ele se ri do brandir da lana.
30 Debaixo do seu ventre h pontas agudas; ele se estende como um trilho sobre o lodo.
31 As profundezas faz ferver, como uma panela; torna o mar como uma vasilha de ungento.
32 Aps si deixa uma vereda luminosa; parece o abismo tornado em brancura de cs.
33 Na terra no h coisa que se lhe possa comparar; pois foi feito para estar sem pavor.
34 Ele v tudo o que  alto;  rei sobre todos os filhos da soberba.
J [42]
1 Ento respondeu J ao Senhor:
2 Bem sei eu que tudo podes, e que nenhum dos teus propsitos pode ser impedido.
3 Quem  este que sem conhecimento obscurece o conselho? por isso falei do que no entendia; coisas que para mim eram demasiado 
maravilhosas, e que eu no conhecia.
4 Ouve, pois, e eu falarei; eu te perguntarei, e tu me responderas.
5 Com os ouvidos eu ouvira falar de ti; mas agora te vem os meus olhos.
6 Pelo que me abomino, e me arrependo no p e na cinza.
7 Sucedeu pois que, acabando o Senhor de dizer a J aquelas palavras, o Senhor disse a Elifaz, o temanita: A minha ira se acendeu 
contra ti e contra os teus dois amigos, porque no tendes falado de mim o que era reto, como o meu servo J.
8 Tomai, pois, sete novilhos e sete carneiros, e ide ao meu servo J, e oferecei um holocausto por vs; e o meu servo J orar por vs; 
porque deveras a ele aceitarei, para que eu no vos trate conforme a vossa estultcia; porque vs no tendes falado de mim o que era 
reto, como o meu servo J.
9 Ento foram Elifaz o temanita, e Bildade o suta, e Zofar o naamatita, e fizeram como o Senhor lhes ordenara; e o Senhor aceitou a 
J.
10 O Senhor, pois, virou o cativeiro de J, quando este orava pelos seus amigos; e o Senhor deu a J o dobro do que antes possua.
11 Ento vieram ter com ele todos os seus irmos, e todas as suas irms, e todos quantos dantes o conheceram, e comeram com ele 
po em sua casa; condoeram-se dele, e o consolaram de todo o mal que o Senhor lhe havia enviado; e cada um deles lhe deu uma pea 
de dinheiro e um pendente de ouro.
12 E assim abenoou o Senhor o ltimo estado de J, mais do que o primeiro; pois J chegou a ter catorze mil ovelhas, seis mil 
camelos, mil juntas de bois e mil jumentas.
13 Tambm teve sete filhos e trs filhas.
14 E chamou o nome da primeira Jemima, e o nome da segunda Quezia, e o nome da terceira Quren-Hapuque.
15 E em toda a terra no se acharam mulheres to formosas como as filhas de J; e seu pai lhes deu herana entre seus irmos.
16 Depois disto viveu J cento e quarenta anos, e viu seus filhos, e os filhos de seus filhos: at a quarta gerao.
17 Ento morreu J, velho e cheio de dias.
